A qualidade do Lúpulo brasileiro

Para falar da qualidade do lúpulo brasileiro chamamos o engenheiro agronômo Gabriel Cássia Fortuna, doutorando em Produção Vegetal com pesquisa em manejo de lúpulo, consultor agrícola na Brazuca Lúpulos e membro do conselho fiscal da Aprolúpulo.

E como está a qualidade dos nossos lúpulos, Gabriel?

Antes de falar sobre a qualidade que vem sendo obtida nos lúpulos brasileiros é importante pontuarmos sobre algumas questões. Vocês sabiam que o lúpulo só atinge a sua fase adulta a partir do 3° ou 4° ano, dependendo da variedade, e só a partir desse período que a planta vai estar apta para fornecer o seu potencial máximo em qualidade e produtividade?

Os primeiros campos comerciais de lúpulo no Brasil foram implantados em 2018 e estão começando a atingir nessa safra de 2021 a sua fase adulta. Porém em 2019 e em 2020 que foram implantados a maioria

Lupulina

 

dos cultivos no país, e agora em 2021 estamos no início do período de montagem de projetos, então teremos muitas plantas atingindo a sua fase adulta em breve, pois o cultivo de lúpulo vem aumentando ano após ano, mostrando-se uma atividade agrícola muito promissora em nosso país. Mas além desta questão fisiológica de idade da planta, outros fatores estão influenciando no aumento da produtividade e qualidade do lúpulo brasileiro.

O que influencia na qualidade do lúpulo brasileiro

Atualmente, com um maior desenvolvimento da cadeia nacional de produção do lúpulo quando comparada a 2018, os produtores hoje podem investir na tecnificação do seu cultivo, contando com consultoria agronômica especializada e usando ferramentas e técnicas mais apropriadas para o manejo da planta, além de terem acesso a viveiros legalizados que vendem mudas de origem comprovada e investem em controle fitossanitário.

Laboratórios especializados em análise química do lúpulo já estão disponíveis e hoje o produtor pode avaliar a qualidade do seu lúpulo safra após safra, com um resultado rápido logo após a colheita. Máquinas para a colheita, secagem e peletização já estão disponíveis no mercado possibilitando o aumento da escala produtiva e o beneficiamento do lúpulo em pellets, o que proporcionou nesse ano definitivamente a entrada do lúpulo brasileiro no mercado cervejeiro.

Todos esses fatores estão contribuindo para o aumento nos teores de alfa ácidos e óleos essenciais dos nossos lúpulos, e os gráficos mostram claramente esse incremento de qualidade em 3 anos de cultivo nas regiões e variedades avaliadas! Outros estados como DF, ES, RJ, PR e MG também tiveram lúpulos analisados pelos laboratórios, porém não tinham dados suficientes para serem feitas médias dentro de cada variedade e ano de produção. Deixo o meu agradecimento aos laboratórios de análise química de lúpulo Escola Superior de Cerveja e Malte, Hops Analysis e Kalamazoo Natural Solutions, que gentilmente cederam os dados analíticos para esse levantamento. Hoje apenas esses três laboratórios oferecem o serviço de análise química de lúpulo no país, contemplando basicamente esses dados todos os lúpulos cultivados no Brasil para fins de comercialização.

Figura 1: Resultados de alfa ácidos totais para quatro variedades avaliadas, em 2 ou 3 anos de cultivo, nos estados de SP, SC e RS.

 

 

Os maiores incrementos de alfa ácidos foram observados no estado de São Paulo, porém em todos os estados houve aumento no teor desse composto em 3 anos de cultivo. A variedade Chinook teve o incremento de alfa ácidos mais expressivo, seguido de Nugget e Cascade. Em 2019 para a variedade Comet só havia uma análise feita, no estado de SP, obtendo 11,22 % de alfa ácidos. Esta variedade foi a que teve o menor incremento, por conta de já ter atingindo um alto teor de alfa ácidos desde o início de seu cultivo em nossas terras!

Figura 2: Resultados de óleo essencial total para quatro variedades avaliadas, em 2 ou 3 anos de cultivo, nos estados de SP, SC e RS.

Para os óleos essenciais, em 2019 e 2020 os maiores teores foram observados no estado de Santa Catarina para as variedades Chinook e Nugget. Em 2021 o estado de São Paulo obteve os maiores teores de óleo essencial total para todas as variedades, e dentre os 3 anos de cultivo foi o que obteve o maior incremento em todas elas. As variedades que apresentaram o maior aumento de óleo essencial total foram Chinook e Nugget.

Análise da qualidade do lúpulo brasileiro

O aumento tanto nos teores de alfa ácidos quanto de óleo essencial em 3 anos de cultivo nas variedades Cascade, Chinook e Nugget, e em 2 anos para a variedade Comet, mostram o quanto que o lúpulo brasileiro tem potencial e está em pleno crescimento de qualidade.

E ainda em 2021 teremos alguns produtores colhendo a safra de outono, que apresentou ótimos resultados no ano passado. Após o final da safra de 2022, ao atualizar esses dados de qualidade e compararmos 4 anos de cultivo, provavelmente iremos ver esses teores ainda em crescimento, e cada vez com mais variedades sendo cultivadas e analisadas, as cervejarias terão inúmeras possibilidades de perfis aromáticos, de sabor e amargor, que ao interagir com diferentes tipos de manejo e locais de cultivo, irão expressar terroirs diferenciados e únicos para cada região produtora.

Como podemos ver o lúpulo nacional já está atingindo em alguns campos qualidade igual ou até superior ao lúpulo importado, ficando evidente ao abrir um pacote de lúpulo brasileiro a sua grande intensidade aromática por ser um lúpulo fresco, recém colhido, diferente do lúpulo importado que apesar de possuir alta qualidade é proveniente da safra de 1 a 2 anos atrás.

A produção nacional desse insumo pode baratear os custos da cerveja no futuro e criar um diferencial para as cervejarias ao usar lúpulos frescos, além da possibilidade de poder trabalhar com produtos avançados do lúpulo como os extratos, óleos essenciais, hop hash e cryohops, que costumam ser raros e chegam com alto preço no país, e agora serão possíveis de serem extraídos a partir da produção de sua valiosa matéria prima!!

E como qualidade de lúpulo agente sente mesmo é no copo, e não em números, bora testar e fazer muitas boas cervejas com essa nova possibilidade que é o lúpulo brasileiro!!

Se você quer mais informações a respeito do cultivo de lúpulo no Brasil pode entrar em contato pelo nosso instagram @brazucalupulos ou pelo site www.brazucalupulos.com.br.

E se você quer conhecer as diferenças de terroir do lúpulo brasileiro, fique sócio do Lamas Brew Club. Quem assinar o ciclo até 24/08/21 garante uma receita de Session IPA feita com o lúpulo Comet nacional das Fazendas Lúpulos Dalcin e da Brava Terra Lúpulos.

Boas Cervejas,

Fernanda Puccinelli Autor

Grande apreciadora de cervejas, teve o primeiro contato com cerveja artesanal sendo cobaia das primeiras cervejas feitas pelos Lamas. ;) Depois de uma temporada nos EUA resolveu unir o útil ao agradável e se aprofundar no mundo das cervejas artesanais. Gosta de viajar, cachorros e claro beber e falar sobre cerveja.

Comentários

    Thiago Zolet

    (9 de agosto de 2021 - 16:20)

    Interessante ver a evolução da quantidade de alfa acido e de oleos essenciais dos lúpulos, o que são bons indicadores de qualidade cada vez mais crescente do nosso lúpulo nacional. Entendo que os testes foram feitos com lúpulos bem frescos, certo?

    Entretanto sinto falta dos produtores nacionais testarem e terem registro do HSI. Como consumidor de lúpulos esses dados interessam tanto quanto AA e Oleos Essenciais, pois quanto menor esse valor tenho mais garantias que o processamento, empacotamento e armazenamento foram bem feitos e os lúpulos vão manter seus preciosos AA e Oleos Essenciais “intactos”. De pouco adianta “na fonte”, na hora da colheita, testar e term valores compatíveis com lúpulos internacionais se no momento que eu comprar o pacotinho na brewshop, alguns meses depois disso tudo, o HSI dele é alto e o que vai chegar pra mim é um valor de AA bem decaído. E mesmo decaido, tudo bem, desde que eu tenha a possibilidade de ter a informação do HSI pra poder calcular a correção dos IBUs na minha receita.

      Gabriel Fortuna

      (20 de agosto de 2021 - 16:12)

      Ótima questão levantada Thiago!
      Primeiramente é importante considerarmos que o HSI é um índice que vai determinar a probabilidade do lúpulo envelhecer, sendo a quantidade de alfa ácidos que potencialmente seriam perdidos dentro de um período de 6 meses, quando o lúpulo é armazenado a 20 C. Então se você tem um lúpulo armazenado de forma correta, livre de oxigênio e em temperaturas abaixo de 0 C, o valor de HSI não é significativo para estimarmos a perda de qualidade daquele lúpulo! Já foram feitos HSI de lúpulos nacionais para fins de pesquisa, e a flor saiu de 0,10 para 0,22 depois de peletizado, sendo esperado esse aumento do HSI com o processamento pois o processo de peletização vai expor mais a lupulina ao contato com o oxigênio. Tem lúpulos importados com HSI 0,30 que quando são medidos em laboratório tem mais do que os 30% de perda de alfa ácidos esperados, e é bem comum encontrarmos valores mais baixos de alfa ácidos nas analises dos pellets importados do que vem escrito no pacote, já que os pellets que chegam no Brasil são de lúpulos colhidos e analisados de 1 a 2 anos atrás, enquanto os lupulos nacionais foram analisados no mesmo ano que vc vai usa-lo. Considerando também que o lúpulo brasileiro não fica nem 6 meses armazenado pois o volume de produção ainda é pequeno e está sendo escoado bem rápido, além da possibilidade na maioria das regiões de serem feitas duas safras no ano, o que possibilita ao mercado ter um lúpulo fresco recém colhido a cada 5 meses, o HSI acaba sendo um fator não relevante para predizer sobre a qualidade do lúpulo brasileiro! Obrigado pela ótima questão levantada e bora fazer boas cervejas com o nosso lúpulo brazucaa!!

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